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Flávia Durante

Homens também precisam comprar a briga pela moda plus size

Flávia Durante

21/01/2019 05h00

Enquanto a moda plus size para mulheres evoluiu muito na última década, as roupas para homens gordos ainda não saíram muito do "estilo tiozão". Por causa do machismo enraizado, o homem – especialmente o hétero – não trata o assunto moda como se também fosse dele. Geralmente a compra de roupas fica por conta das mães e avós, quando eles são jovens, e das namoradas e esposas, quando ficam adultos. Então, não é um hábito masculino exigir do mercado e pressionar por mudanças como as mulheres fizeram ao longo desses dez últimos anos.

Leia mais: Plus size não é um estilo, é tamanho de roupa

Mas isso não quer dizer que não se incomodem com a falta de opções na hora de se vestir. O jornalista, apresentador e DJ Thiago Borbolla, conhecido como Borbs, sempre se vestiu com camisetas pretas e bermudas. "Durante boa parte da minha vida eu me vesti de acordo com o que as pessoas diziam ser bom. Com o tempo eu passei a não me sentir bem comigo, mais ou menos numa mesma época em que eu comecei a me forçar a ter uma vida social mais ativa. Veio a tatuagem, que eu percebi que me deu uma outra maneira de enxergar meu corpo, como se eu fizesse parte dele de fato", conta o jornalista. "E então veio a diminuição das meias, variação de cores e tênis, deixei de ser 'o gordo que usa bermudão e camiseta'. Queria usar camisas, mas nunca encontrava nada que não me sentisse como qualquer alguém que alguma loja resolveu revestir de algum pano".

Borbs não se esquece da sensação boa que teve ao colocar pela primeira vez roupas que representavam sua personalidade. Descobriu marcas de camisas coloridas, alegres, que que tinham relação direta com seu lifestyle. "Comecei com uma de abacaxis, que eu usei primeiro no Carnaval. E depois foi virando a minha 'nova' marca. Passei a ter, de fato, um estilo. As pessoas ainda elogiam minhas camisas mas agora não é SÓ isso. Eu me olho no espelho e me sinto alguém. Eu não estou só usando uma camiseta legal e ponto. Sou uma pessoa inteira. Uma pessoa que não vai ser olhada na rua por ser gorda. Só uma pessoa. E isso é muito legal", continua.

@borbs. Foto: Robson Leandro da Silva

A relação do estilista e empreendedor Diego Soares com a moda começou através da música. Ele era professor de dança e queria se vestir como os rappers norte-americanos. A dificuldade de encontrar peças estilosas no seu tamanho fez com que ao lado da esposa Camila ele criasse sua própria marca, a Rainha Nagô, que atende homens e mulheres.

Diego já se sentiu discriminado de várias formas. Teve sua orientação sexual questionada e o fato de ser negro e gordo também já o colocaram em situações de preconceito. "Somos uma fatia grande do mercado. Se encontrássemos preços justos e peças de bom gosto, com certeza nosso consumo seria maior", diz Diego sobre a importância do homem se posicionar enquanto consumidor de moda.

@diego_stylist. Foto: Arquivo Pessoal

A ficha do DJ, ativista LGBT+ e educador Jô Moreno sobre a importância da moda como aliada caiu à medida em que ela foi ajudando a redescobrir sua autoestima. "Uma vez que descubro o amor próprio, uso dele pra me mostrar ao mundo a partir da moda. Creio que isso seja um processo contínuo, pois sempre busco algo novo em mim para me reinventar", conta o DJ, que vive em Londrina. "Consumindo moda, estamos nos transformando a partir do tempo e do espaço, como todo processo cultural. Um homem que se posiciona como consumidor de moda pode espontaneamente comunicar ao mundo novos comportamentos, mais adequados e inclusivos na nossa sociedade", finaliza.

@jomorenodj. Foto: Arquivo Pessoal

Bruno Barreto, que é RP de uma multinacional alemã, demorou para construir sua identidade fashion pois não encontrava referências. "Moda é você ter a capacidade de sentir bem em sua própria pele. E na adolescência, que foi o momento de construção de minha personalidade, sofri muito para achar uma calça de jeans que não fosse igual a dos pais dos meus amigos. Tive que me privar de usar camisetas de marcas porque elas simplesmente não existiam no meu tamanho", diz. O que ele aprendeu com isso foi achar um caminho para se diferenciar no meio de sua turma, por isso sempre foi adepto de acessórios que davam personalidade aos seus looks, como gravatas e óculos diferentões.

Já adulto, trabalhando em ambiente corporativo, um de seus maiores medos sempre foi que sua roupa rasgasse ou que sujasse antes de uma reunião importante. "Já vi isso acontecer com amigos magros e a resolução foi simples: correu até o shopping e comprou uma roupa nova. Eu não poderia sonhar com isso, mas hoje, eu já posso até passar por essa situação e sei como me virar!", conta Bruno.

Ele acredita que o homem gordo precisa se posicionar e colocar para fora os seus gostos por uma questão de autoestima. "Ao se posicionar e começar a consumir moda, o gordo deixa uma marca de empoderamento: eu quero, eu posso, eu sei o que fica bom em mim e me cabe! Ainda temos um longo caminho em relação a caimento, tipo de tecidos, grade etc. Mas estamos evoluindo aos poucos!", fala Bruno, que chegou a manter o Instagram @estilochubby com dicas de moda masculina. "Ao me colocar como consumidor, eu viro as regras do jogo e passo reivindicar uma democratização da moda masculina plus size! Meu sonho é ver mais lojas aumentando suas grades e colocando o gordo em igualdade na moda!".

@estilochubby. Foto: Arquivo Pessoal

Assim como as mulheres brigaram muito na internet com as marcas e grandes redes para que as coisas evoluíssem, os homens também precisam se posicionar e fazer o mesmo se querem ver uma mudança real nos paradigmas do mercado em termos de quantidade, qualidade e preço. Moda não é só "coisa de mulher" ou "coisa para homens gays". Experimente sair de casa sem roupa ou sem o código adequado em determinados eventos sociais para ver o que acontece em nossa sociedade. Moda é identidade, pertencimento e dignidade. E desses itens todos os seres humanos precisam!

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PS: Triste ver que o post que fiz em dezembro de 2017  poderia ser repetido agora pois nenhuma das modelos plus size citadas foi capa em 2018. As revistas femininas e de moda que ainda sobraram precisam captar o espírito do tempo para continuar a sobreviver.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Flávia Durante tem 41 anos e é comunicadora, DJ e empresária nascida em São Paulo e criada em Santos. Desde 2012 produz a Pop Plus, feira de moda e cultura plus size, com média de público de 10 mil pessoas por evento. Ao longo destes 6 anos tem desmistificado conceitos e conselhos que mulheres (e homens também) vem ouvindo há décadas sobre os padrões da moda.

Sobre o blog

Um espaço para falar de mercado e moda plus size, beleza, acessibilidade, bem estar e autoestima.

Blog da Flávia Durante