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Flávia Durante

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Gordofobia também é parte da violência obstétrica

Flávia Durante

31/07/2018 16h33

"E aí, doutor, já preparou sua anestesia pra rinoceronte?" Foi o que a consultora de moda e estilista Cássia Isbener ouviu do anestesista em plena mesa do parto no momento mais importante de sua vida, o nascimento do filho, hoje com 14 anos. Esse é apenas um dos retratos da violência obstétrica que mulheres gordas passam constantemente em suas rotinas de pré-natal e na hora do parto.

Cássia Isbener e o filho, hoje com 14 anos

Cássia sempre teve uma boa saúde. Mas, quando engravidou, o ginecologista que cuidou dela a vida toda se desesperou. "Ele disse que não sabia cuidar de uma 'gravidez de alto risco'. Aí me apavorei e foi esse pânico que ele instaurou em mim, tanto que mal curti a gravidez e nem tenho fotos da barriga. Só que ele não me passou instrução alguma, não conseguiu precisar meu tempo gestacional e só na reta final deixou para fazer os exames no bebê. Mas ao longo da gestação eu não tive nenhum problema, minha gravidez foi perfeita, a não ser esse super constrangimento na hora do parto", conta a estilista. "A gente fica carente querendo um médico que te acolha, não mais uma pessoa querendo fazer piadas e te discriminar num momento como esse", desabafa.

Leia mais: Saúde não tem tamanho: quando a gordofobia vem do médico

A violência obstétrica atinge cerca de 25% das mulheres do país na hora do parto ou do pré-natal, segundo pesquisa da Fundação Perseu Abramo feita em parceria com a ONG Artemis. São as mulheres negras que mais sofrem violência obstétrica no Brasil. Segundo Ministério da Saúde, 62,8% das mulheres que morrem durante o parto são negras. Não há pesquisa sobre mulheres gordas. Mas ao fazer a pesquisa para esse post, além das entrevistas, colhi vários relatos nas redes sociais com a hashtag #gordofobiamédica. O ódio que alguns médicos demonstram por mulheres gordas é de chocar. Alguns parecem se esquecer do artigo 23 de seu próprio código de ética.

Código de Ética Médica (2010)

IV – DIREITOS HUMANOS

É vedado ao médico:
Art. 23. Tratar o ser humano sem civilidade ou consideração, desrespeitar sua dignidade ou discriminá-lo de qualquer forma ou sob qualquer pretexto.

Apesar de desde a década de 80 a obesidade ser definida como doença pela ONU, somente em 2013 a American Medical Association, a organização médica mais influente, decidiu declarar a obesidade oficialmente uma doença e inseri-la no Código Internacional das Doenças (CID). O debate ainda desperta discussões calorosas entre médicos, acadêmicos e ativistas. Não podemos esquecer que a Medicina e a Ciência também são construções sociais. Ao longo da história, condições entraram e saíram dessa lista por mudanças culturais da humanidade, como a homossexualidade e a transgeneridade. Há um grupo de médicos americanos sugerindo que o envelhecimento seja colocado no CID. Seremos todos doentes no futuro já que a velhice é inevitável?

E mesmo que ser gordo fosse uma doença, isso não dá o direito a profissionais de saúde tratarem pessoas gordas como subumanas. É fundamental reconhecer que ser gordo não é questão de "falta de vergonha na cara". Pessoas são gordas por diversos motivos, não só por "comerem demais". Podem também ter metabolismo lento, passar por transtornos alimentares, terem tomado algum medicamento que desencadeou ganho de peso, serem sedentárias, passarem por disfunções hormonais, não terem como manter uma alimentação saudável ou simplesmente por genética. E absolutamente todas merecem respeito e tratamento digno.

Não acredito que seja errado sugerir que a paciente perca peso de uma forma saudável se, depois de exames e averiguação, o médico achar mais adequado para a estrutura corpórea da paciente. Mas tudo depende do tom que o profissional fala para a pessoa, que se foi até a um consultório certamente já está fragilizada ou na expectativa de que tudo dê certo na hora do parto. Tanto que não conseguem nem reagir na hora que sofrem essas violências.

Luana Carolina e o filho Pedro Henrique, hoje com 4 anos, lindo e saudável

A produtora de eventos Luana Carolina Batista, 30 anos, foi muito bem atendida por todos os profissionais durante seu pré-natal e teve uma gestação ótima. Mas na hora do parto começou o filme de terror. "O obstetra disse gordo não poderia ter filho pois como ele iria encontrar uma criança no meio da banha? Chorei muito e comecei a me apavorar, a ponto do anestesista tampar os meus ouvidos para eu não escutar mais os absurdos do médico. Até o momento em que ele pediu o fórceps pois disse que não iria machucar seu braço para tirar 'aquilo' (meu filho). Pra completar ainda falou para a pediatra não colocar meu filho em cima de mim para a maca não quebrar. E ainda continuou me chamando de gorda o tempo todo", relata. Conclusão: Luana não amamentou, seu leite secou e teve depressão durante quatro meses.

"Chorei muito e comecei a me apavorar, a ponto do anestesista tampar os meus ouvidos para eu não escutar mais os absurdos do médico", Luana Carolina

A veterinária Erica Bertha de Mello Oliveira passou por 11 obstetras até 5 meses de gestação. "Mesmo tendo todos os parâmetros clínicos estáveis durante a gestação, os primeiros ginecologistas obstetras que fui sempre eram categóricos em falar que, por ser gorda, minha gestação era de risco". Ao procurar por parto vaginal escutava que teria eclâmpsia, diabetes gestacional, que seu filho seria prematuro e que ela colocava em risco a vida de seu filho. "Isso me gerou uma depressão, tinha medo constante de abortamento."

A situação melhorou quando Erica teve contato com profissionais humanizados. "Ali pela primeira vez me foi falado que minha gestação não era de risco pelo simples fato de ser gorda. Dentro dessa realidade, os equipamentos eram adequados ao meu corpo. Era levado em conta coisas bem simples de física, que vão desde o tamanho do manguito para o braço do paciente, até o nível em que o braço fica na hora da mensuração da pressão. Uma maca como uma cama, na qual eu ficava confortável para ser examinada", conta. "Minha gravidez era de baixo risco a ponto de poder planejar um parto domiciliar. Acabou que precisei transferir o parto para o hospital, devido a bolsa rota prolongada. No final dessa jornada muito doida, eu acabei parindo o Thomas de pé, que foi a posição mais confortável pra mim. Eu, a gorda defeituosa, pari meu filho de 3,440kg de pé. Sem ninguém encostar em mim no momento do expulsivo. Eu peguei ele e coloquei direto no peito. Sem a mão de mais ninguém. Com toda a equipe na sala de delivery, eu fui respeitada naquele momento."

Erica e Thomas, hoje com 5 anos, em paz

Erros na hora da descoberta da gravidez também são comuns. Gabriele Menezes, 27 anos, assistente de relacionamento e instagrammer do @garotasgordinhas conta que foi fazer uma consulta com o ginecologista (pois não estava menstruando) mas não estava sentindo nada relacionado a gravidez. "A primeira coisa que ele observou foi meu pescoço estar 'alto' e apalpando tinha quase certeza que era algum problema na tireóide. Ele fez todo os exames de toque que um ginecologista tem que fazer, colheu amostras e em momento nenhum me alertou que poderia ser gravidez, ficou batendo na tecla da tireóide. Marquei os exames e lá eu descobri (fazendo um ultrassom da barriga) que não era tireóide e sim o Nicholas. Para os médicos todo o gordo tem propensão a alguma doença relacionada a glândula da tireóide. Obviamente troquei de médico", conta Gabi.

Leia mais: Qual é a diferença entre pressão estética e gordofobia?

Felizmente nem tudo é um show de horrores. A publicitária e youtuber Mariana Lima, de 30 anos, conta que seu obstetra e seu cardiologista sempre a trataram como mulher e mãe, nunca como uma mulher gorda. Para acolher mães e tentantes cheias de dúvidas em relação aos seus corpos e a gestação, Mari criou um canal no YouTube e um grupo no Facebook chamado Mamães, Gestantes e Tentantes Plus Size, na qual mais de 800 mulheres de reúnem para trocar dicas de bons médicos, compartilham experiências e seus anseios.

São tantos os maus tratos que acabam afastando as mulheres gordas dos consultórios médicos, aí sim elas deixam de cuidar da saúde. Algumas ficam por anos sem ir ao médico pois já sabem que sofrerão chacota, serão julgadas e criticadas antes mesmo de um simples exame. É triste pensar que chegamos no ponto de pensar em termos como "parto humanizado" ou "médicos humanizados". É preciso achar uma forma de aliar técnica e tratamento humanizado em todas as especialidades para pessoas de todos os tipos, idades, tamanhos e classes. A primeira gravidez é um momento único que não volta se for estragado. Os maus tratos de um médico jamais devem ser a primeira lembrança de uma mulher nessa hora.

Saiba como denunciar Violência Obstétrica:

Exija cópia do seu prontuário junto à instituição de saúde onde foi atendida. Esta documentação pertence à paciente, podendo ser cobrado apenas o valor referente aos custos das cópias. Procure a Defensoria Pública, independentemente se você usou o serviço público ou privado. Ligue para o 180 (Violência contra a Mulher) ou para o 136 (Disque Saúde).

Fonte: Defensoria Pública

Portal Médico do Conselho Federal de Medicina

ONG Artemis

Sobre a autora

Flávia Durante tem 41 anos e é comunicadora, DJ e empresária nascida em São Paulo e criada em Santos. Desde 2012 produz a Pop Plus, feira de moda e cultura plus size, com média de público de 10 mil pessoas por evento. Ao longo destes 6 anos tem desmistificado conceitos e conselhos que mulheres (e homens também) vem ouvindo há décadas sobre os padrões da moda.

Sobre o blog

Um espaço para falar de mercado e moda plus size, beleza, acessibilidade, bem estar e autoestima.