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Flávia Durante

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Sem gordos na produção, o mercado de moda nunca vai mudar

Flávia Durante

17/04/2018 04h00

Não é raro no segmento plus size da moda os micro e pequeno empreendedores serem originalmente de outras áreas que não a da indústria do vestuário. Há marcas criadas por advogadas, pedagogas, corretoras de imóveis, contadoras. Em comum o fato de serem gordas e terem criado suas grifes por uma dificuldade de encontrar roupas de acordo com seu estilo e personalidade no mercado brasileiro.

Esse foi o meu caso. Sou jornalista e em 2012 criei uma feira de moda plus size contemporânea, a Pop Plus, por não me identificar com nada que existia na moda plus size da época. De lá pra cá, o evento acabou se tornando um dos maiores do mundo no segmento. Tudo por conta de uma demanda reprimida, pois o mercado era dominado por confecções que acreditavam que a mulher gorda queria somente se esconder e que não precisava estar nas tendências atuais da moda.

Como eu já disse aqui no blog, não acredito que somente gordos possam fazer moda plus size, basta ser um profissional ético, competente e empático. Mas para haver uma mudança de fato na indústria da moda é preciso que pessoas gordas façam parte não só do fim da cadeia, como consumidoras, ou da vitrine, como modelos, mas também de toda a sua estrutura. Como estilistas, modelistas, costureiras, fotógrafas, vitrinistas, gerentes de lojas, profissionais de marketing, jornalistas de moda. Ou seja, gente que sabe o que é ser gordo e que conhece suas necessidades e particularidades. E que possa pensar e falar de igual para igual.

A jornalista, produtora e designer de moda Raíssa Galvão fez vários colegas repensarem o sistema de moda (Instagram @rayneon)

Porém, o gordo dificilmente se vê como protagonista dessa história, pois a indústria da moda é extremamente gordofóbica e sempre o excluiu de todas as formas. Há poucos profissionais fora dos padrões estéticos no mundo fashion, pois a magreza é valorizada como sinônimo de elegância. E o gordo é ligado ao desleixo, deselegância e cafonice. O estilista alemão Karl Lagerfeld, diretor criativo da Chanel, alfinetou várias vezes a cantora britânica Adele por conta de seu peso. O ex-CEO da Abercrombie, Mike Jeffries, disse que não gostaria de ver a marca vestida por gordos. E mesmo top models como a norte-americana Ashley Graham são esnobadas por estilistas de renome em grandes eventos.

Por outro lado, há cada vez mais jovens gordos enfrentando a hostilidade e carão típicos desse meio e ocupando o que é seu de direito: as faculdades de moda. Ana Laura Holtz está no último ano de uma conceituada faculdade de São Paulo. Desenhava roupas detalhadas já aos três anos de idade e na hora de decidir qual curso fazer, não pensou em outra coisa. "Uso a moda como forma de empoderamento, de desconstruir a imagem segundo a qual gorda não se veste bem, não tem estilo e só usa o que cabe". A maioria dos professores sempre elogiam e incentivam o seu trabalho. Mas de um, em específico, já ouviu que não tem capacidade de seguir nessa área. Ela não vê outro motivo a não ser o preconceito pelo seu tamanho.

Os alunos não esbarram em gordofobia somente de professores e colegas mas também em questões técnicas, estruturais e no conteúdo das aulas. "Em todos os anos de faculdade nunca abordamos o corpo gordo, nem mesmo nas aulas de ergonomia. Por isso existem tantos designers que não fazem a mínima ideia de como funciona o corpo gordo e o que é viável ou não", conta Raíssa Galvão, jornalista, produtora e designer de moda, conhecida como Ray Neon nas redes sociais. "Resistir na faculdade teve sua importância, pois fiz diversas pessoas questionarem o sistema de moda e a pensarem em um corpo maior na hora de criar", completa.

A designer de moda Aline Vito vê a moda como oportunidade de gerar mudanças sociais e econômicas (Instagram @aline_vito)

A designer de moda Aline Vito conta que até teve incentivo para fazer o seu TCC pensando no público plus size. Mas as peças tinham que ser feitas em sala de aula onde só havia manequins 38. "Isso me fez desistir da ideia, do que me arrependo muito", diz Aline. Hoje, com sua marca homônima, faz questão de incluir uma grade extensa em sua numeração. "Acredito que através da moda inclusiva e consciente temos a capacidade de gerar mudanças sociais e econômicas". A estilista Juliana Lindemann Ronchetti, criadora da marca plus size Lollaboo, conta que foi bem acolhida por professores e colegas, quando estudante. Mas ainda assim esbarrou na questão da acessibilidade. "Sempre fui gorda e alta. Com 10 anos já tinha 1,70m. Então banheiros e bancos eram pequenos, cadeiras me apertavam, algumas vezes acabei sentando na mesa do professor mesmo. Mas a necessidade foi notada e a faculdade comprou carteiras do meu tamanho pra todas as salas", conta Sky, como é conhecida.

Caio Cal, consultor de imagem, criador de conteúdo e youtuber, gastou anos de sua vida usando todo conhecimento na área de moda para disfarçar o tamanho de seu corpo. "Hoje entendo que a moda é minha aliada por mais existam aspectos sociais que tentam me provar que estou errado", diz. "Moda é resistência. É acesso. É a maneira que a gente tem de mostrar que nossos corpos existem".

A modelista e professora Wendi Caires tem como prioridade de seu trabalho fazer com que seus alunos entendam a necessidade do outro (Instagram @wendiwelove)

Quando estudava moda, a modelista Wendi Caires achava que teria que emagrecer para ter sucesso na carreira, pois em nenhum momento tamanhos maiores eram abordados como possível mercado. Chegou a ser rejeitada em alguns estágios e empregos por vestir mais do que 48. Hoje é dona de seu próprio ateliê e professora em diversos cursos na Capital e Interior de São Paulo. Ela acredita que os novos profissionais do ramo devem enxergar a necessidade do outro como parte fundamental de seu trabalho. "Precisamos entender a importância desse mercado socialmente e economicamente", afirma.

É muito difícil romper esses estigmas, pois mesmo em grandes marcas ditas inclusivas, a questão é colocada em prática de uma forma superficial e por muitas vezes hipócrita. Querem o dinheiro do gordo mas não a pessoa gorda como protagonista. No máximo uma mulher curvilínea, ou seja, a gorda idealizada sem barriga, culote ou papada. Muitos ainda não perceberam que o tempo é de mudança e o consumidor de hoje busca cada vez mais realismo e identificação.

Enquanto não houver uma modificação estrutural em toda a cadeia da moda no Brasil dificilmente vai haver uma mudança de fato. Indústria, cursos e universidades têm que preparar os futuros profissionais da área para lidar com todos os tipos de corpos e não só com o padrão europeu. E para tornar a moda mais inclusiva é preciso tratar as pessoas gordas não só como possibilidade de cifrões elevados mas, acima de tudo, como seres humanos.

Sobre a autora

Flávia Durante tem 41 anos e é comunicadora, DJ e empresária nascida em São Paulo e criada em Santos. Desde 2012 produz a Pop Plus, feira de moda e cultura plus size, com média de público de 10 mil pessoas por evento. Ao longo destes 6 anos tem desmistificado conceitos e conselhos que mulheres (e homens também) vem ouvindo há décadas sobre os padrões da moda.

Sobre o blog

Um espaço para falar de mercado e moda plus size, beleza, acessibilidade, bem estar e autoestima.