Flávia Durante

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Por que aplaudimos uma atriz magra que expõe a barriguinha de cerveja?

Flávia Durante

09/01/2018 13h07

A foto da atriz Samara Felippo, que foi aplaudida por sua iniciativa (Foto: Reprodução/Instagram)

Há 35 anos o mundo perdia a cantora e baterista Karen Carpenter que, ao lado do irmão Richard, formava os Carpenters, uma das mais bem sucedidas duplas da canção pop norte-americana. A anorexia nervosa se tornaria uma doença psiquiátrica conhecida pelo mundo inteiro a partir do sofrimento de Karen. Nunca se saberá ao certo o que disparou o gatilho da doença na artista. Se a pressão da imprensa, que certa vez disse que ela estava “cadeiruda” demais. Se a intensa rotina de turnês e gravações. Ou o rígido controle da espartana família. O fato é que Karen faleceu no dia 4 de fevereiro de 1983 aos 32 anos, pesando 35kg, e sem jamais ter tido um momento de paz com o seu próprio corpo.

De lá para cá várias celebridades admitiram ter sofrido com transtornos alimentares: Portia de Rosis, Alanis Morissette, Geri Halliwell, Christina Ricci, Demi Lovato, Cássia Kiss, Isabella Fiorentino, só para citar algumas que já citaram ter passado por problemas como a anorexia, bulimia e compulsão alimentar. É impossível mensurar o estrago que a imposição de padrões estéticos únicos causou em nossas jovens. Mas ainda hoje não é difícil achar na internet blogs “pró-ana” e “pró-mia”, com as receitas mais esdrúxulas e perigosas possíveis para emagrecer.

O mercado fitness fez com que a elite encontrasse alguma forma de se diferenciar da população, já que a moda, os bens de consumo e as viagens tornaram-se um pouco mais acessíveis à classe média no Brasil. As musas fitness ganharam milhões de seguidores nas redes sociais e viraram as novas celebridades. Em uma corrente contrária, o ativismo digital e a quarta onda do Feminismo dos anos 2010 fortaleceram o “body positivity”, discurso de positividade em relação ao corpo, com menos ódio e rejeição e mais amor próprio.

Na última semana a atriz Samara Felippo foi celebrada por ter postado foto de sua barriga ao natural. Atitude que seria impensável há alguns anos, quando atrizes e modelos tinham que manter um padrão único de beleza. Assim como ela, no Brasil as atrizes Carolinie Figueiredo e as jornalistas Daiana Garbin e Mirian Bottan têm levado a discussão do corpo positivo a frente. É muito importante que nossas jovens se cerquem não só de musas fitness, modelos ditas perfeitas e também de divas plus size, mas de todos os tipos de inspiração, pois não existe uma só possibilidade de corpo e não é preciso seguir um só modelo.

A modelo plus size Tess Holliday, constantemente atacada nas redes sociais (Foto: Reprodução Instagram @tessholliday)

Porém, mulheres gordas continuam a ser massacradas diariamente somente por existirem. Uma mulher magra postando foto de sua barriguinha de cerveja é celebrada e aplaudida. Uma mulher plus size postando foto de biquíni ou de lingerie é satirizada. O que faz com que militantes do ativismo gordo tenham criado uma certa rejeição ao termo “body positive”, que elas dizem ter se tornado “em cima do muro” e irrelevante. Não dá para se esquecer que a “body positivity” surgiu da segunda onda do Feminismo nos anos 60, que também focou na discriminação contra mulheres gordas.

Mas a discussão sobre autoestima acaba sempre focada em beleza, quando sabemos que isso é uma questão bem relativa. Beleza é uma das ferramentas da construção da autoestima, mas ficar só nisso pode levar a uma armadilha. Nos comentários deste blog e de tantos outros sites que falam sobre ativismo gordo, moda plus size e gordofobia sempre há perguntas como “sou obrigado a achar isso bonito?”. É obvio que não! Uma autoestima fortalecida não é só apenas sobre ser bonita. É saber se libertar de um relacionamento abusivo. Saber se impor em questões de assédio moral no trabalho. É saber reconhecer o seu talento e não se autossabotar. É sobre ter autonomia. É sobre autoconfiança em todos os âmbitos de sua vida. Algo que Karen Carpenter jamais teve.

Sobre a autora

Flávia Durante, tem 40 anos e é comunicadora, DJ e empresária nascida em São Paulo e criada em Santos. Desde 2012 produz a Pop Plus, feira de moda e cultura plus size, com média de público de 8 mil pessoas por evento. Ao longo destes 5 anos tem desmistificado conceitos e conselhos que mulheres (e homens também) vem ouvindo há décadas sobre os padrões da moda.

Sobre o blog

Um espaço para falar de mercado e moda plus size, beleza, acessibilidade, bem estar e autoestima.

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