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Gordofobia existe até em ônibus: "Sinto frio na barriga ao ver a catraca"

Flávia Durante

24/11/2017 04h00

Post gordofóbico que circulou no Facebook

Lembro como se fosse ontem. Ao lado de amigas blogueiras e produtoras celebrávamos a primeira participação de modelos gordos no São Paulo Fashion Week, o evento de moda mais importante do Brasil. Estávamos radiantes por mais essa conquista. Ao sair do desfile na Bienal do Ibirapuera, rumo ao ponto de ônibus, logo voltamos à realidade. Metade da turma conseguiu passar da catraca, metade não. Ali estava dado o recado: o mundo ainda não é feito para pessoas gordas.

Enquanto falamos em moda e representatividade na cultura pop, muitos ainda não conseguem usufruir de direitos básicos como tratamento humano e acessibilidade na saúde ou mesmo ao transporte coletivo. Especialmente em ônibus há constrangimento, desconforto e dificuldades diárias.

"Ela deveria emagrecer"

Foi isso o que ouviu a professora Valéria Silva ao entalar às 7h30 da manhã na catraca de um ônibus lotado em São Paulo. Ninguém parou para pensar que o problema está na falta de um design universal que inclua cada vez mais usuários de diferentes tipos de corpos e não em quem tem a circunferência mais larga. A acessibilidade é um direito de todos, – sejam gordos, idosos ou cadeirantes -, é uma conquista social que nos permite exercer a nossa plena cidadania.

Somente há pouco tempo o analista de sistemas Hélio Pimentel se deu conta dessa segregação, principalmente nos ônibus de São Paulo, Capital. "Nós, gordos, temos que ficar confinados na parte da frente, que costuma representar 1/3 do ônibus ou menos. Parece muito natural que 2/3 dos lugares não estejam disponíveis para nós", desabafa. "Se devemos ter rampas para facilitar a acessibilidade, por que não catracas razoáveis?", questiona.

Helio Pimentel (Foto: Arquivo pessoal)

Saída acaba sendo apps

Muitos acabem optando por gastar mais e utilizam apps de mobilidade urbana como o 99 ou Uber para fugir do desconforto e de constrangimentos. Renata Marcelino relata o caso de sua irmã Rafaela, que é gorda e tem Síndrome de Down. "Além da escada ser muito alta, ela não consegue passar pela catraca, então a todos os lugares que vamos somente de carro ou metrô. Porém até chegar à estação de metrô mais próximo precisamos pegar um carro", conta.

"Toda vez que preciso pegar um ônibus é aquela apreensão e friozinho na barriga por conta da catraca. Na maioria das vezes pego um Uber ou 99 para me livrar dessa situação", conta a jornalista e modelo Genize Ribeiro. "Usar apps ou táxi acaba sendo a melhor saída para quem não tem carro ou condições de pagar mais caro por uma acomodação que 'sirva"', diz Danielle Cristiano, que é corretora de seguros e corredora de rua.

Genize Ribeiro (Foto: Arquivo pessoal)

Poltronas dos aviões são pequenas

Em aviões não é diferente. Mesmo as opções "conforto" das companhias aéreas são paliativas pois oferecem mais espaço para as pernas, mas a largura das poltronas é sempre a mesma. E é discriminatório fazer com que uma pessoa gorda pague por dois lugares para ter mais conforto. "Sempre tenho que pedir extensor de cinto. Se o cinto fosse 30 cm maior serviria, mas nunca dá", conta a jornalista e escritora Jéssica Balbino. "Já levei cotovelada de uma senhora de São Paulo ao Rio de Janeiro até perguntar a ela se tinha algum problema comigo", relata a empresária Camila Oliveira.

Jéssica Balbino (Foto: Arquivo pessoal)

Muitos não sabem, mas gordos de porte maior têm direito à assento especial em transporte público, de acordo com a Lei Federal nº 13.146/2015. Nesta nova lei foi trazida a diferença entre "pessoa com deficiência" e "pessoa com mobilidade reduzida", na qual os gordos maiores se encaixam. Nisso entra outra questão bem particular e que tem sido muito discutida entre ativistas da questão: se lutamos para sermos vistos como pessoas não doentes e incapazes, é certo fazermos uso dessa lei? Por outro lado, pessoas gordas com maior dificuldade de movimentação permanente ou temporária precisam sim ser contempladas.

"Recentemente no metrô um cara ficou visivelmente incomodado e bufando para mim, levantou-se e mudou de lugar", conta a professora Margot Jansen, que chegou a desenvolver pânico de andar de ônibus na adolescência, por conta de tanta chacota e desconforto sofridos. Mas hoje em dia ela se deu conta de que o problema não está nela e sim em quem não sabe conviver com diferentes tipos de pessoas. E de quem não permite a construção de um novo mundo que inclua de fato todos os seres humanos.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Flávia Durante tem 41 anos e é comunicadora, DJ e empresária nascida em São Paulo e criada em Santos. Desde 2012 produz a Pop Plus, feira de moda e cultura plus size, com média de público de 10 mil pessoas por evento. Ao longo destes 6 anos tem desmistificado conceitos e conselhos que mulheres (e homens também) vem ouvindo há décadas sobre os padrões da moda.

Sobre o blog

Um espaço para falar de mercado e moda plus size, beleza, acessibilidade, bem estar e autoestima.

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