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Flávia Durante

Flávia Durante

Saúde não tem tamanho: quando a gordofobia vem do médico

Flávia Durante

2028-10-20T17:04:00

28/10/2017 04h00

Quem é gordo sabe bem como é. Antes de falar "boa tarde" você já ouve do médico "tem que emagrecer". Mesmo que você tenha bons índices e esteja indo ao consultório para tratar de uma unha encravada. Muitas pessoas gordas acabam deixando de ir ao médico por medo de serem hostilizadas pelos próprios profissionais de saúde. Infelizmente não são poucos os relatos de maus tratos, pouco caso e violência até na hora do parto, como se ser gordo fosse um crime inafiançável.

Leia mais: Gordofobia também é parte da violência obstétrica

Em setembro o UOL Estilo publicou o relato da professora capixaba Samira Torres, que ouviu de seu próprio ginecologista: "Gorda assim pode trepar à vontade que não vai conseguir engravidar". Poucos meses depois da consulta ela engravidou naturalmente e teve Enzo, hoje com quatro anos.

 

A empresária Kika Maia (Foto: André Carvalho/Divulgação)

Ao pensar em ter mais um filho, a empresária de moda baiana Kika Maia fez os exames de rotina, que estavam em dia. Mas nem assim deixou de ouvir do endocrinologista que ela teria que emagrecer "senão seu marido não vai querer fazer filho em você".

Na sequência, uma ginecologista exigiu uma série de exames, a mandou emagrecer e tomar a vacina da rubéola. "Eu já estava grávida e ela não viu", conta Kika. Por instinto não tomou a vacina, que não é recomendada para grávidas, e foi em outra clínica, que confirmou a gravidez. "Neste dia chorei muito, foi um alívio por ter pulado a fogueira de um erro médico", disse.

Bariátrica forçada

Entre médicos do trabalho, a hostilidade também é grande. Ao fazer exames admissionais para ingressar em uma nova empresa, a blogueira e radialista paulista Mariana Hessel chegou a escutar do profissional: "gorda assim ninguém mesmo vai querer deitar com você". Há ainda os que recomendam que a paciente engorde para poder adquirir o IMC mínimo e poder fazer a cirurgia. "Tenho 22 anos, nunca tive problema de saúde e toda vez que entro em um consultório me empurram uma bariátrica", ela conta.

Sem falar nas dificuldades de equipamentos adequados para pessoas com o peso mais elevado. Algumas pessoas chegam a ser encaminhadas para hospitais veterinários ou hípicas por falta de balanças, cadeiras, aparelhos de pressão, macas e aparelhos de ressonância magnética para quem pesa acima de 120 kg. A desumanização é constante.

Se a preocupação é TANTA assim com a saúde do gordo, por que não equipar os hospitais e clínicas com os aparelhos adequados e exigir dos médicos um atendimento humanizado? Nem quando a pessoa gorda decide emagrecer consegue ser tratada de uma forma digna.

Mariana Hessel. (Foto: Milena Paulino/Divulgação)

Segundo a Organização  Mundial de Saúde (OMS), saúde é "um estado de completo bem-estar físico, mental e social e não somente ausência de afecções e enfermidades". Muitas vezes a pessoa gorda tem ótimos índices mas tem a saúde mental afetada devido à gordofobia da sociedade, da família e até de quem deveria cuidar dela sem preconceito ou julgamentos.

Para reunir contatos de médicos "size friendly", ou seja, "amigáveis em relação ao peso", as ativistas canadenses Amy Tuckett-McGimpsey, Lori Peters e Lisa Naylor criaram o site Good Fat Care. Trata-se de uma base de dados que reúne médicos que atuam no Canadá sob a perspectiva do "Health At Every Size" (HAES) . Essa filosofia criada há cerca de 40 anos segue 5 princípios básicos:

  • Abordagem inclusiva do peso: aceitar a diversidade de corpos existentes e rejeitar a idealização ou patologização de determinados tipos físicos; 
  • Focar na melhora da saúde: olhar para a saúde de maneira ampliada (e não apenas como peso), considerando fatores tanto biológicos, psicológicos, sociais, econômico, políticos, entre outros; 
  • Cuidar com respeito: reconhecer os preconceitos sociais existentes e trabalhar para o fim da discriminação em todos os âmbitos da sociedade; 
  • Comer para o bem-estar: promover o ato de comer de forma flexível, individualizada, baseada nos sinais de fome e saciedade, necessidades nutricionais e prazer, ao invés de dietas com foco em perder peso;  
  • Movimentar-se para melhorar a qualidade de vida: apoiar atividades físicas que possibilitem pessoas com quaisquer tamanhos, habilidades e interesses em participar de uma atividade que movimente o corpo de maneira prazerosa.
    (Fonte: César Vicente Jr, nutricionista, em depoimento para o blog Beleza Sem Tamanho)

No Brasil, como ainda não existe um serviço parecido, caso seja você mal atendida no SUS, a reclamação pode ser feita pelo Disque Saúde 136 para o registro na ouvidoria. Em caso de tratamento particular, faça o relato para a ouvidoria do seu convênio ou do hospital. Não deixe de reclamar e exigir seus direitos caso seja ofendida por ser gorda, ou caso tenha seu tratamento recusado.

Somos seres humanos como quaisquer outros e exigimos respeito!

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Flávia Durante tem 41 anos e é comunicadora, DJ e empresária nascida em São Paulo e criada em Santos. Desde 2012 produz a Pop Plus, feira de moda e cultura plus size, com média de público de 10 mil pessoas por evento. Ao longo destes 6 anos tem desmistificado conceitos e conselhos que mulheres (e homens também) vem ouvindo há décadas sobre os padrões da moda.

Sobre o blog

Um espaço para falar de mercado e moda plus size, beleza, acessibilidade, bem estar e autoestima.